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A Mandala Terapêutica e o Diálogo com a Alma

acervo pessoal de denise schinetzky
acervo pessoal de denise schinetzky

Você já parou para pensar como algo tão simples — cores, linhas e formas dentro de um círculo — pode abrir um diálogo profundo com a nossa alma?


A verdade é que o mandala não é algo que surgiu recentemente. Ele atravessa a história da humanidade. Está nas pinturas rupestres, nas tradições orientais, nas artes sacras e também aparece espontaneamente nos desenhos das crianças. Muitas vezes, antes mesmo de saber desenhar “formas”, a criança desenha círculos.


O círculo está profundamente enraizado em nós. Ele aparece como o sol — essa presença constante que nos acompanha desde sempre — e carrega um simbolismo que toca algo muito antigo dentro da psique humana. O sol aparece em simbolismos de todas as culturas, desde tempos primevos.


Mas o que torna o círculo tão especial?

Na psicologia analítica, autores como Marie-Louise von Franz explicam que o círculo é um símbolo do self — ou seja, da totalidade da psique. Ele representa uma espécie de organização interna que inclui tudo: consciente e inconsciente, humano e natureza, luz e sombra.


E foi justamente isso que Carl Gustav Jung começou a perceber na própria experiência.

Em um período muito intenso de sua vida, durante a guerra, Jung passou a desenhar mandalas diariamente. Ele descrevia esses desenhos como “fotografias do seu estado interno”. À medida que os dias passavam, os mandalas mudavam — e, junto com eles, algo dentro dele também se reorganizava.


Pouco a pouco compreendi o que significa propriamente o mandala: ‘Formação - Transformação, eterna recriação da Eterna Mente’. O mandala exprime o si-mesmo, a totalidade da personalidade que, se tudo está bem, é harmoniosa, mas que não permite o autoengano. Meus desenhos de mandalas eram criptogramas que eram diariamente comunicados acerca do estado do meu “si-mesmo”. (Jung, 2017, pg. 39)


Foi assim que ele compreendeu o mandala como um processo vivo:um movimento de formação, transformação e recriação da psique que não é somente um desenho, é um retrato da alma em movimento.

 

O mandala como processo terapêutico

Quando o mandala aparece em um contexto terapêutico, ele não surge como técnica estética, mas como expressão.Ele pode ser desenhado, pintado, modelado… ou até dançado.


Jung observou que, quando uma pessoa não conseguia se expressar por imagens, o corpo entrava como caminho simbólico. Sugeria então que seus pacientes dançassem pois o movimento também pode organizar aquilo que ainda não tem forma.


No Brasil, esse olhar ganhou uma força muito especial com o trabalho pioneiro da Dra Nise da Silveira. Ao trabalhar com pacientes psiquiátricos, ela percebeu algo impressionante: quando essas pessoas tinham acesso à expressão artística, seus conteúdos internos começavam a se reorganizar. E, com frequência, surgiam formas circulares — mandalas, como se a própria psique estivesse tentando se reorganizar. Esse fenômeno levou Nise a dialogar diretamente com Jung, confirmando algo fundamental: existe uma força organizadora interna que se manifesta quando damos espaço para a expressão simbólica. A expressão organiza a psique.

 

O que acontece quando você cria um mandala?

Na arteterapia, antes de iniciar o mandala, geralmente se propõe um momento de desaceleração. Um convite para voltar ao corpo.Para a respiração.Para o momento presente.


Esse “rebaixamento da consciência” é diminuir o excesso de controle racional e permitir que algo mais profundo emerja. A partir daí, a criação acontece, trazendo uma representação do momento interno.


Cores, formas, movimentos, repetições, vazios… tudo pode carregar significado. Muitas vezes, esses elementos expressam conteúdos inconscientes — pessoais ou coletivos — através dos símbolos que surgem.


E o mais importante: o significado desses símbolos não se esgotam. Eles vão se revelando em camadas, ao longo do tempo. Como Jung dizia, o desenvolvimento psíquico é um processo — e não um evento pontual.


“O mandala criado traz uma representação do que está ocorrendo no momento e a qualidade do concreto para que as questões sejam presentificadas e acolhidas. Surge a oportunidade de diálogo com os elementos psíquicos que se apresentam nas imagens, figurativas ou abstratas, cores, formas, movimentos, relações formais, entre outros, que podem trazer a representação de complexos ou arquétipos do inconsciente coletivo através dos símbolos que surgem espontaneamente.” (Schinetzky, 2023 p.81)

 

Materiais, escolhas e o que eles revelam

Outro ponto muito interessante no trabalho com mandalas é a escolha dos materiais. Às vezes, o terapeuta propõe.Outras vezes, a pessoa escolhe intuitivamente. E essa escolha diz muito.

Há quem prefira lápis — mais controle.

Há quem evite tinta — mais imprevisível.

Há quem se sinta desconfortável com materiais mais fluidos, como aquarela.


E tudo isso é linguagem da psique. Nise da Silveira já observava que o contato com materiais menos “domináveis” pode mobilizar conteúdos mais profundos — inclusive aqueles que evitamos. Por isso, aos poucos, o processo terapêutico também convida à ampliação:experimentar novos materiais…novas sensações…novas formas de ser.

E, com isso, ampliar também a consciência.


Não é sobre estética

Uma coisa importante: o mandala terapêutico, assim como todas as atividades em arteterapia, não tem compromisso com estética. O objetivo não é criar uma obra de arte mas permitir que a expressão aconteça, lcom liberdade criativa e uma boa dose de “licença poética”.


Não precisa ser simétrico. Não precisa “ficar bonito”. Não precisa seguir regras.O centro, por exemplo, muitas vezes nem é planejado — ele simplesmente aparece. Como se algo dentro soubesse o caminho. E, nesse processo, algo profundamente humano se revela: a busca por integração.


Um caminho de volta a si

Criar mandalas pode ser um caminho delicado e potente de encontro consigo mesma.Um espaço onde opostos podem coexistir:luz e sombra, controle e entrega, forma e caos, cheio e vazio.


Na linguagem simbólica, poderíamos dizer que os materiais se tornam mediadores — quase como “pontes” entre o mundo interno e o externo.


Ou, como na mitologia, instrumentos de Hermes: aquele que transita entre mundos.

Podemos dizer que o mandala é um gesto de escuta. Um movimento de organização interna. Um cuidado com a alma.


Denise Schinetzky é Arteterapeuta Junguiana (aatergs 06/0142/0417), leciona a Disciplina de Mandalas Terapêutica (ente outras) da Especialização em Arteterapia Junguiana onde é coordenadora adjunta e supervisora de estágio. Realiza atendimentos em arteterapia em Porto Alegre. É ceramista e dá aulas de cerâmica. Entre em contato pelo hatsApp 51.981404107 ou @deniseschinetzky


Referências bibliográficas

1- JUNG, Carl Gustav. O Livro Vermelho - Liber Novus. Petrópolis, Editora Vozes, 2017

2- SCHINETZKY, Denise (org). Arteterapia no RS: nosso caminhar. Ed dos autores, 2023

3- SILVEIRA, Nise. Imagens do Inconsciente. Petrópolis, Editora Vozes, 2015




 
 
 

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