Breve história da Arteterapia
- Denise Schinetzky
- 14 de fev.
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No final do século XIX, importantes mudanças paradigmáticas trouxeram um outro olhar a respeito do ser humano, indo além da lógica do pensamento racional e do modelo cartesiano. Fundamentado em uma nova visão de mundo, em descobertas da física moderna e também em pesquisas das ciências humanas, surgem novos conceitos a respeito da saúde mental, a partir de Freud, Adler, Jung e dentre outros que investigaram a subjetividade humana e foram pioneiros da psicologia da profundidade. (Ciornai, 2004).
As descobertas sobre o inconsciente e sua subjetividade, a importância das imagens oníricas, as inovações no campo das artes em que diferentes linguagens artísticas passaram a coexistir e se intercambiar, trouxeram conceitos revolucionários que mudaram a imagem de homem e de mundo, inaugurando uma nova perspectiva de olhar sobre ambos. Freud observou que o artista pode simbolizar concretamente o inconsciente na produção artística, retratando os conteúdos do psiquismo que, para ele, é uma forma de sublimação.
Porém, Jung foi além ao utilizar a expressão artística de forma terapêutica em consultório. Para Jung, a simbolização do inconsciente individual e do coletivo ocorre na arte. A partir de sua vivência pessoal com a arte, introduz a linguagem expressiva como forma de tratamento, solicitando aos clientes que fizessem desenhos livres, pinturas, esculturas e até movimentos representativos de imagens de sentimentos, de sonhos, de situações conflituosas ou outras, valorizando a expressão artística e seus benefícios como componentes de cura. (Lopes, 2019)
Na Europa, em meados do século XX, o artista britânico Adrian Hill, começa a trabalhar com arte junto a feridos de guerra, obtendo importantes benefícios para a saúde mental dos internados no hospital. (Hill, 1945). É em meio a esse cenário de desorganização social e de sofrimento do Pós II Guerra Mundial que Hill utiliza o termo arteterapia. Nos Estados Unidos, Margaret Naumburg, Edith Kramer e posteriormente Janie Rhyne, também iniciavam esse movimento denominado arteterapia. Em 1969 é formalizada a Associação Americana de Arteterapia (AATA). (Duchastel, 2010, Ciornai, 2004).
No Brasil temos referências importantes que utilizaram a arte em processos terapêuticos, contribuindo para a formulação teórica da arteterapia brasileira, com o Dr. Osório César, psiquiatra que atuou em Franco da Rocha, São Paulo, no Hospital Psiquiátrico do Juquery. Marido da artista Tarsila do Amaral, incentivou e oportunizou a produção artística de seus pacientes, lutando contra as condições desumanas com que os doentes mentais eram tratados na época. Em 1925 publicou o livro com influência freudiana, “A arte primitiva dos alienados”, seguido de outras publicações.
A Dra. Nise da Silveira, uma das responsáveis pela humanização do tratamento psiquiátrico no Brasil, é referência importantíssima para a arteterapia, pois utilizou linguagens expressivas como teatro, pintura, desenho e modelagem, a fim de promover a livre expressão de seus pacientes. (Brasil, 2013). Embora definisse seu trabalho como Terapia Ocupacional, lançou as sementes para o uso terapêutico da arte com vasta fundamentação teórica que são importantes para os arteterapeutas. Na década de 40, trabalhando junto aos pacientes psiquiátricos no Hospital D. Pedro II, no Rio de Janeiro, realizou um amplo estudo das imagens produzidas pelos pacientes, como forma de comunicação e organização do inconsciente, sob a ótica do referencial junguiano, deixando um grande legado teórico, e inspirando a todos os que praticam as terapias através da arte. Com as obras de seus pacientes funda, em 1952, o Museu de Imagens do Inconsciente. Vários documentários foram produzidos sobre o trabalho da Dra. Nise da Silveira, em destaque ao filme “Nise - o coração da loucura” por ser fidedigno aos fatos ocorridos no Hospital Psiquiátrico Engenho de Dentro.
Em 1957 a Dra. Nise vai à Zurique para fazer estudos no Instituto C.G. Jung e participar do II Congresso Internacional de Psiquiatria, sendo reconhecida internacionalmente como pesquisadora brasileira. Leva na bagagem pinturas e modelagens de seus pacientes, e ganha uma sala exclusiva para expor os mandalas que receberam atenção especial de Jung. A partir desse momento, inicia-se um relacionamento mais próximo com Jung, e a psicologia junguiana é introduzida em terras brasileiras. Seu primeiro livro “Imagens do Inconsciente” é uma importante referência teórica para os arteterapeutas. Sobre o trabalho da Dra. Nise da Silveira, afirma Walter Boechat:
"Considero que, pela libertação das mãos com as atividades expressivas e pela libertação do coração com o olhar compassivo, Nise da Silveira tornou-se um novo Phillipe Pinel do século XX. mas enquanto Pinel libertava os loucos de suas algemas nos hospitais de Paris do século XIX, dando-lhes o status de pacientes psiquiátricos, não de possuídos por demônios, retirando deles a nomina religiosa a qual estavam confinados e conferindo-lhes a nomina médica. Nise da Silveira os liberta desta outra prisão, a prisão diagnóstica. Conferindo-lhe o status de pessoas humanas. Talvez este seja o cerne de seu trabalho, em minha opinião. Além disso, fica também demonstrada a eficácia terapêutica das artes expressivas e que a Terapêutica Ocupacional é uma eficiente estratégia terapêutica para grandes hospitais, como quis Nise da Silveira." (2012 apud Brasil 2013, p.36).
Selma Ciornai trouxe importantes contribuições teóricas, ou seja, é uma das pioneiras da Arteterapia no Brasil. Seu primeiro contato com a arteterapia foi em Israel, em 1975. Em 1978 iniciou seu Mestrado em Arteterapia, na Califórnia, onde conheceu Janie Rhyne. Durante cinco anos em que estudou nos Estados Unidos, participou de congressos, e teve contato com diversos profissionais da arteterapia. Em 1983 é credenciada na Associação Americana de Arteterapia.
Segundo Ciornai, Margarida M.J. de Carvalho é uma das primeiras arteterapeutas brasileiras. Autodidata, teve seu primeiro contato com a arteterapia em 1964, com Hanna Yaxa Kwiatkouska, no Curso de Extensão Universitária em Arteterapia, no Instituto de Psicologia da PUC-SP. Nos anos 1980 Angela Philippini iniciou um grupo de estudos na Clínica Pomar no Rio de Janeiro, transformado mais tarde em Pós-Graduação, sendo um dos cursos mais antigos do Brasil. Ciornai implementou o primeiro Curso de Formação de Arteterapia em São Paulo em 1984, no Instituto Sedes Sapientiae e em 1990 inaugurou o Curso de Especialização em Arteterapia. Em 2001, Ciornai trouxe o curso a Porto Alegre como Formação no INFAPA. A abordagem da arteterapia praticada por Ciornai segue a Gestalt como principal referencial teórico, sendo essa uma das linhas praticadas no Brasil e em diversos países. (CIORNAI, 2004).
Os primeiros cursos de formação ou especialização tiveram início após os arteterapeutas semearem nosso solo com seu trabalho pioneiro em atendimentos clínicos, institucionais ou workshops. Vieram então anos férteis para o ensino formal da arteterapia, começando a desabrochar, contribuindo para saúde mental do povo riograndense. Em 1998 Bagé sedia a primeira turma de Especialização em arteterapia. Em 2001 inicia em Porto Alegre a primeira turma de Formação em Arteterapia de Abordagem Junguiana, na Clínica Psique, com Lígia Diniz, uma das sócias de honra da AATERGS. Nesse mesmo ano inicia também o curso da Centrarte. Importante destacar que, em 2004 a FEEVALE implementou a primeira graduação em arteterapia do país. Hoje colhemos frutos desse trabalho grandioso e próspero que tem o zelo de nossa Associação.
Novas instituições abriram cursos de formação ou especialização em arteterapia e foram acolhidas na associação: IERGS, UPF, CENSUPEG, INTCC/ FAMAQUI, UCS e, recentemente a Formação de Arteterapia Junguiana em parceria com o IJRS - Instituto Junguiano do Rio Grande do Sul. Semelhante ao que ocorre nos Estados Unidos e em outros países, no Brasil temos as associações regionais de arteterapia que formam a União Brasileira de Associações de Arteterapia, a UBAAT. Existem critérios que os cursos de Formação e de Especialização devem seguir para que possam ser cadastrados nas associações, tais como: 360 horas/aulas seguindo os conteúdos obrigatórios, e observando os pré requisitos para o corpo docente, 100 horas de estágio e 60 horas de supervisão, aceitando apenas alunos já graduados.
Denise Schinetzky é arteterapeuta junguiana, atelierista e ceramista. Atualmente é coordenadora adjunta da Especialização em Arteterapia Junguiana, além de docente do curso. Realiza atendimentos clínicos, grupos e workshops em arteterapia. Desenvolve um trabalho artístico com cerâmica, seu principal recurso de expressão, além de ministrar atelier e workshops em cerâmica manual, em Porto Alegre, RS @deniseschinetzky WhatsApp 51.981404107
Referências bibliográficas
1- BRASIL, Cláudia. Cores, formas e expressão - emoção de lidar e arteterapia na clínica junguiana. Rio de Janeiro: Wak, 2013.
2- CIORNAI, Selma (org). Percursos em Arteterapia - vol. 63. São Paulo, Summus Editoria, 2004.
________ Percursos em Arteterapia - vol. 64. São Paulo, Summus Editorial, 2004.
3- CIORNAI, Selma; DINIZ,Lígia. Arteterapia no Brasil. Artigo traduzido e extraído da Revista “Arteterapia - Papeles de arteterapia y educación artísticas para la inclusión social”, Vol 3/2008, pg. 13-16, ISSN:1886/6190. Uma publicação da Universidad Complutense de Madrid.
4- DUCHASTEL, Alexandra. O Caminho do Imaginário. São Paulo: Paulus, 2010.
5- HILL, Adrian. Art Versus Illness. London: George Allen and Unwin, 1945.
6- LOPES, Cristina P. Práticas criativas de arteterapia como intervenção na depressão - memórias da pele. Petrópolis: Vozes, 2014
7- SCHINETZKY, Denise (org). Arteterapia No Rio Grande do Sul: nosso caminhar. Canoas, RS. Editora dos Autores, 2023 - Breve História da Arteterapia



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