Compreendendo os sonhos na Arteterapia: desenho e Amplificação Junguiana
- Corina Post

- há 5 dias
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O processo expressivo permite retratar as sutis transformações da existência, documentando os anseios da alma, tal como nas pinturas rupestres. Na Grécia antiga, no Templo de Epidauro, os sonhos já tinham papel de diagnóstico e prognóstico. Do mesmo modo, os movimentos artísticos marcam posicionamentos sociais e políticos, dando forma a uma intensa força que emerge no inconsciente coletivo, como nas expressões contra guerras e governos ditatoriais.
Em seus diálogos internos no deserto líbio, Jung encontra o anacoreta cristão Amônio, num processo de imaginação ativa que revela a força propulsora de conteúdos inconscientes. Esse processo permite que afetos não vividos sejam compreendidos e reanimados por meio de amplificações e desenhos. Os Livros Negro e Vermelho oferecem pontes entre passado e futuro, abrindo caminhos vivenciais e nos convidando a nos religar à psicologia junguiana a partir de uma base imaginal, revitalizando seu legado. Transformação é um símbolo da libido.
“Amplificar um símbolo será, deste modo, um processo que retoma trilhas muito antigas, presentes na história do homem há muitos séculos, uma vez que já existem registros do processo expressivo como documentário psíquico há 35.000 anos atrás, no período paleolítico. O setting de Arteterapia funcionará então como temenos, espaço sagrado de criação, labirinto formado de afetos e imagens.” (Philippini, 2000, p. 18).
A amplificação, como uma circum-ambulação em torno da imagem, não busca interpretar, mas reconstruir o caminho da pesquisa que permitiu encontrar o que dizer e como dizê-lo. O fio condutor são as associações e descobertas de cada um, complementadas por informações simbólicas arquetípicas que codificam o percurso da individuação (Pain, 1996; Philippini, 2000).
Para isso, é essencial olhar para a imagem sem interpretá-la apressadamente. “Devemos ser fiéis à Imagem!”, como nos conta Gustavo Barcelos na introdução do livro de Hillman (2018), rememorando uma fala de Rafael López-Pedraza. De acordo com Jung, “por imagem nós não queremos dizer o reflexo psíquico de um objeto externo, mas um conceito derivado do uso poético, a saber, uma figura do devaneio ou imagem de fantasia” (Jung, 2011, § 743). A imagem simbólica transporta uma energia que pode nos aprisionar ou nos mobilizar dolorosamente, proporcionando discernimento e novas escolhas.
A temática da amplificação surge como um método de abordagem dos significados oníricos (Jung, 1996, p. 170). Berry e Kast aprofundam essa visão: a imagem de fantasia é sensorial, embora não perceptiva, e na imaginação a realidade se torna símbolo, conectando o concreto ao psíquico (Berry, 2024; Kast, 2024).
Essa relação exige restaurar a imagem à nossa vista, “não tanto naquilo que vemos, mas no modo como o vemos” (Hillman, 2018, p. 92). Isso significa trazer a perspectiva imaginal a tudo, transformando o que vemos em imagens de significância e percebendo que nós mesmos somos uma composição de imagens, a personificação da vida da alma.
É justamente no trabalho com a materialidade do desenho que essa energia imaginal se ancora. Ao desenhar um sonho, o conteúdo psíquico ganha corpo, cor e textura, tornando-se um objeto concreto com o qual se pode dialogar. Angela Philippini (2009) afirma que “o desenho documenta a subida gradual do conteúdo inconsciente até a consciência, da forma de expressão difusa até a forma objetiva que torna claro o tema simbólico a ser trabalhado… O desenho conta a história, configura o símbolo e facilita a compreensão no nível da consciência” (p. 50-51). Carl Gustav Jung já apontava para esse poder ao destacar que o fundamental é dar forma ao que emerge: “O importante é dar-se forma. […] Muitas vezes é suficiente dar forma visível a um determinado conteúdo, bastando a sua contemplação, não sendo preciso também o entendê-lo. A forma visível dá ao indivíduo uma espécie de segurança” (Jung, 2003, p. 148).
Os sonhos possuem uma função compensatória em relação à consciência, buscando uma homeostase entre esta e os aspectos negligenciados da personalidade. Para Artemidoro de Éfeso, era necessário saber tudo sobre o sonhador. Jung nos alerta sobre a postura do terapeuta: “É importante que o médico admita que não sabe; assim, os dois estarão prontos a aceitar os fatos imparciais da natureza... Os sonhos são fatos objetivos. Eles não respondem às nossas expectativas” (Jung, 2014, p. 27).
Na Arteterapia, se o profissional conta o que acha ser o problema, o cliente segue sugestões e não faz a própria experiência. O sonho pode ser uma reação inconsciente a uma situação consciente, um conflito entre ambas ou uma tendência do inconsciente para modificar a atitude consciente (Jung, 2011b). Suas imagens metafóricas resguardam um sentido oculto, sendo “o mais valioso tesouro de informações sobre nós mesmos” (Franz, 2011, p. 12).
O arteterapeuta deve, portanto, atentar para o como se elabora a ação expressiva, pois isso inclui todo o ser de quem age, acolhendo o claro-escuro da vida (Jung, 2011a). Através da abordagem junguiana, o desenho permite que surjam criativamente conteúdos a serem examinados sob uma nova forma.
Para o trabalho com sonhos através dos desenhos, é necessária uma disponibilidade criativa para transformar-se pela via das imagens. Para “ficar com a imagem”, sugiro algumas perguntas baseadas em Patricia Berry(2024):
· Quem é a imagem? Em que lugar está? O que faz?
· Quais as sensações corporais e sentimentos que ela desperta?
· Como os elementos se relacionam? Traz alguma lembrança?
· Você pode isolar um elemento e fazer uma nova expressão com ele, conversando com a imagem.
Neste trabalho, a arte é um processo expressivo livre, não vinculado a questões estéticas ou acadêmicas. Os materiais funcionam como canais de comunicação entre o ego e o inconsciente, promovendo equilíbrio e bem-estar (Philippini, 1995). Como nos lembra Jung, “vale a pena observar pacientemente o que se processa em silêncio na alma. A maioria das transformações e as melhores ocorrem quando não se é regido pelas leis vindas de cima e do exterior” (Jung, 2011ª. § 126).
Então, quando estamos,
“...criando e recriando imagens através das atividades expressivas, a alma busca nos comunicar seus anseios e desejos para que possamos nos conhecer e reconhecer, onde poderemos explorar toda a nossa possibilidade de existência e realização do nosso ser, um chamado a se realizar. Ao reconhecer este processo como um chamado, pode se sentir algo tão intenso que cala por dentro, é como se tivéssemos sido preenchidos por algo muito profundo que nos leva a lugares internos, percorrendo e buscando imagens que fazem sentido único para coisas e situações vividas, momentos muito significativos na vida de cada um. Um movimento natural e orgânico para se regenerar e respeitar o potencial criativo, como um processo da alma. Que este movimento reflita o “Sagrado” em mim, e que o processo gere transformação, que gere imagens, sentidos e um caminho que nos faça escutar e entender o chamado de nossa alma.” (POST, 2021)
“A arte muda a mente das pessoas, e as pessoas podem mudar o mundo”, assim nos conta a artista urbana afegã, Shamsia Hassani, onde sua arte denuncia a violência e a opressão vivida em seu país.
Corina Post é graduada em Psicologia pela Universidade Tuiuti do Paraná (1999) CRP 07/09471. Arteterapeuta (2003) UBAAT 06/010/0603. Especialista em A Moderna Educação com o foco no aluno pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2019). Formada como Analista Ditada Junguiana pelo IJRS/AJB/IAAP (2010).
Referências
BERRY, Patricia. O corpo sutil de Eco: contribuições à psicologia arquetípica. Petrópolis: Vozes, 2024.
FRANZ, Marie-Louise von. A interpretação dos contos de fadas. 9. ed. São Paulo: Paulus, 2011.
HILLMAN, James. Uma investigação sobre a imagem. Petrópolis: Vozes, 2018.
JUNG, Carl Gustav. Cartas de C. G. Jung: 1951-1961. Petrópolis: Vozes, 2003. v. 2.
JUNG, Carl Gustav. Fundamentos de psicologia analítica: as conferências de Tavistock (1935). Petrópolis: Vozes, 1996.
JUNG, Carl Gustav. Psicologia e alquimia. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2011a. (Obras completas de C. G. Jung, v. 12).
JUNG, Carl Gustav. Seminários sobre análise de sonhos: notas do seminário dado em 1928-1930. Petrópolis: Vozes, 2014.
JUNG, Carl Gustav. Seminários sobre sonhos de crianças: sobre o método da interpretação dos sonhos; interpretação psicológica de sonhos de crianças (1936-1940). Petrópolis: Vozes, 2011b. (Obras completas de C. G. Jung).
JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. Tradução de Lúcia Mathilde Endlich Orth. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2011. (Obras completas de C. G. Jung, v. 6).
KAST, Verena. A imaginação como espaço de liberdade: diálogos entre o ego e o inconsciente. São Paulo: Loyola, 2024.
PAIN, Sara; JARREAU, Gladys. Teoria e técnica da arteterapia: a compreensão do sujeito. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.
PHILIPPINI, Angela. Amplificação simbólica. In: PHILIPPINI, Angela. Arteterapia: métodos, projetos e ateliês. Rio de Janeiro: WAK, 2000. p. 18.
POST, Corina. Um Chamado da Alma, Experiência com o Soulcollage® no universo transpessoal: In Bubols, N. Milena, Souza, Z.C. Anaí (Org.). Psicologia Transpessoal, Integrando ciência, arte e espiritualidade. Porto Alegre: Marco Brasil, 2021.
PHILIPPINI, Angela. Arteterapia. Imagens da Transformação, Rio de Janeiro, v. 2, n. 2, 1995.
PHILIPPINI, Angela. Arteterapia: um resgate criativo. Rio de Janeiro: WAK, 2009.

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