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A Escrita Criativa na Arteterapia: quando a imaginação ajuda a organizar o mundo interno


arteterapia oportuniza a autoexpressão através de técnicas e materiais
arteterapia oportuniza a autoexpressão através de técnicas e materiais

No atendimento em arteterapia com crianças, é comum que emoções difíceis apareçam primeiro pela imaginação e pela fantasia, muito antes de surgirem em palavras diretas. Foi exatamente o que observei no acompanhamento de um menino de 11 anos, atendido em contexto terapêutico, que trouxe para nossas sessões uma imaginação rica, afetiva e profundamente simbólica.


Ao longo dos encontros, utilizamos diversas técnicas, como desenho, pintura, escultura e mosaico como caminhos para acessar sentimentos que estavam presentes, mas ainda sem forma clara.


Foi durante uma sessão em que ele não pôde comparecer presencialmente que sugeri que criássemos uma história em conjunto como forma de mantermos o vínculo e a continuidade do processo terapêutico. Ele foi narrando a história de maneira espontânea, e eu, como arteterapeuta, transcrevi exatamente o que dizia, apenas ajustando a escrita às regras gramaticais. Todas as ideias surgiram exclusivamente do seu imaginário. Assim nasceu a narrativa de duas personagens que se perdem em uma floresta cheia de ameaças (caveiras, sangue, ruídos assustadores e a figura de uma bruxa poderosa). Ele também incluiu a presença de animais perigosos, como uma grande cobra, e a entrada de um adulto que tenta ajudar, mas não sobrevive na trama. Ao final, os personagens encontram forças para enfrentar a bruxa e conseguem sair da floresta em segurança.


Embora a história seja fictícia, ela se tornou um espaço simbólico seguro para que emoções reais pudessem aparecer: medos desconhecidos, sensação de perigo, busca por proteção e a necessidade de encontrar recursos internos para lidar com situações desafiadoras. A escrita criativa permitiu que esses sentimentos fossem projetados para fora, organizados e ressignificados.


Antes de avançarmos para os sentidos simbólicos presentes na história, é importante destacar que, na Arteterapia, não realizamos interpretações prontas nem atribuímos significados de forma unilateral. O que fazemos é amplificar, ou seja, ajudar o paciente a explorar possibilidades de sentido a partir do que ele mesmo cria, sempre em diálogo. Todas as reflexões que surgiram sobre a narrativa foram conversadas com ele, que pôde olhar para sua própria história e reconhecer nuances, sentimentos e imagens que faziam sentido para seu próprio mundo interno.


A história se tornou presente em vários encontros, onde, aos poucos, foi possível explorar as ideias, sentimentos, lembranças, associações que surgiam ao nos fixarmos em partes específicas da trama. A floresta, por exemplo, apareceu como um lugar escuro, confuso e cheio de riscos, lugar conhecido pelo paciente na instabilidade da sua vida real.


A bruxa, figura central de ameaça, nos levou a falar sobre seus medos internos, lembranças de momentos difíceis ou até mesmo a sensação de perda de controle diante do desconhecido. Já o personagem que surge para ajudar, mas não permanece vivo na história, trouxe um conteúdo emocional importante: a percepção de que nem toda ajuda é constante, mas ainda assim existem encontros que protegem e fortalecem.


Ao longo da narrativa, os personagens tentam fugir, lutam, erram, tentam novamente, se defendem e finalmente vencem. Esse movimento foi importante e reforçado por mim, como arteterapeuta, para lembrá-lo de algo fundamental; das estratégias e recursos que ele já possui para enfrentamento dos desafios em sua vida.


Quando, no final ele sugere como frase, “a floresta parecia até ter ficado menor”, pode-se perceber a grandiosidade dessa técnica, do processo arteterapêutico e do vínculo estabelecido nas sessões, como se fosse uma mensagem para nos lembrar que quando o medo ganha forma, ele também diminui. A escrita criativa, quando utilizada de forma intencional na arteterapia, pode se transformar em um poderoso instrumento de expressão emocional. Por meio da fantasia, a criança dá forma aos seus medos, organiza suas vivências internas e encontra recursos simbólicos para lidar com desafios reais. Histórias como essa mostram que, quando a arte encontra o cuidado clínico, abre-se um caminho seguro para que a criança possa nomear, sentir, elaborar e transformar, sempre no seu tempo e do seu jeito.


Por Priscila Weber

Caxias do Sul, novembro de 2025


Priscila Weber - Arteterapeuta (AATTERGS 206/0620), Publicitária (UNISINOS), atriz, professora de teatro. Coordena o Ateliê Araçari, espaço de arte do Instituto de Leitura Quindim, em Caxias do Sul. Criou a metodologia “Ateliê do Faz de Conta” e apresenta a linguagem teatral a crianças de 3 a 6 anos em escolas e espaços terapêuticos, trabalhando suas emoções e facilitando seu processo de individuação desde muito pequenos. Atende individualmente crianças e adultos. Professora da Disciplina Grupos em Arteterapia do Curso de Formação em Arteterapia Junguiana (curso em parceria com o IJRGS). Escritora do livro “Estrelas de Amar” em conjunto com a Psicóloga, Arteterapeuta e Analista Junguiana Marita de Jesus Padilha Bombel.


Contato: @priscilaweber_arteterapia | 54. 99189 7562 |weber.priscila@gmail.com 

 
 
 

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