Quando a vida corre mais rápido que a gente: o papel da Arteterapia na promoção da saúde em um mundo acelerado
- Marita Pdilha Bombel

- 24 de abr.
- 3 min de leitura
atividade expressiva promove desaceleração da mente e do corpo
Vivemos um tempo em que tudo parece acontecer rápido demais.
As mensagens chegam antes que possamos responder, os dias passam antes que possamos habitá-los, e muitas vezes nos vemos atravessados por uma sensação silenciosa — a de estar sempre em falta com o tempo.
O sociólogo Hartmut Rosa (2022) nomeia esse fenômeno como aceleração social, um dos traços marcantes da contemporaneidade. Mais do que uma simples percepção subjetiva, trata-se de um processo estrutural que impacta diretamente nossa forma de viver, sentir e nos relacionar.
Segundo o autor, essa aceleração se manifesta em três dimensões principais: o avanço tecnológico, que encurta distâncias e intensifica a comunicação; a rapidez das mudanças sociais, que tornam instáveis referências antes duradouras; e o ritmo de vida cada vez mais intenso, marcado por uma constante “fome de tempo”.
Nesse cenário, o presente parece encolher. Mal vivemos uma experiência, e já somos convocados à próxima.
E o corpo… nem sempre acompanha.
Quando o tempo externo não encontra o tempo da alma
Apesar dessa aceleração, há dimensões da vida que não se submetem à lógica da pressa.
Processos de luto, adoecimento, amadurecimento emocional, decisões importantes — todos eles seguem um tempo próprio. Um tempo que não pode ser comprimido sem custo.
Como nos lembra a analista junguiana Verena Kast, “a alma precisa de tempo” — tempo para compreender, para elaborar, para integrar experiências, inclusive aquelas que são boas e belas.
Quando esse tempo interno é constantemente atropelado, surgem sinais de sofrimento: ansiedade, esgotamento, sensação de vazio, dificuldade de presença e de vínculo.
Há, então, um desencontro entre o ritmo do mundo e o ritmo do ser.
A Arteterapia como espaço de desaceleração
É nesse ponto que a Arteterapia se revela como prática terapêutica e também como um gesto de resistência — um modo de sustentar o tempo da alma em um mundo apressado.
Ao convidar a pessoa a se expressar, criar, a experimentar materiais, formas, cores e imagens, a Arteterapia propõe uma pausa — não uma pausa vazia, mas uma pausa habitada.
No fazer expressivo, o tempo se transforma.
Ele deixa de ser produtivo para se tornar vivido. Deixa de ser cobrança para se tornar experiência.
A criação simbólica permite que emoções encontrem forma, que vivências ganhem linguagem e que a pessoa possa se escutar para além do ruído e da pressa do cotidiano.
Mais do que produzir algo, trata-se de habitar um processo.
Reconstruindo um tempo possível
Diante de um mundo que acelera, a promoção de saúde passa também pela reconstrução de uma relação mais saudável com o tempo.
A Arteterapia contribui nesse sentido ao favorecer:
O resgate do ritmo interno;
A ampliação da capacidade de presença;
A elaboração simbólica das experiências;
O fortalecimento dos vínculos consigo e com o outro.
Ela nos lembra, de forma sensível, que nem tudo precisa ser rápido — e que algumas das experiências mais importantes da vida só acontecem quando há tempo suficiente para senti-las.
Desacelerar também é cuidar
Em um mundo que nos empurra para frente, sem pausas, a Arteterapia nos convida a um movimento diferente: voltar.
Voltar para o corpo.
Voltar para a experiência.
Voltar para aquilo que, em nós, ainda sabe esperar.
Porque uma das formas de promover saúde é devolver à vida o tempo necessário para que ela possa, de fato, florescer.
Referências Bibliográficas:
Kast, Verena. A alma precisa de tempo. Vozes, 2016.
Rosa, Hartmut. Alienação e aceleração: por uma teoria crítica da temporalidade tardo-moderna. Petrópolis, RJ: Vozes, 2022.
Marita de Jesus Padilha Bombel: Psicóloga graduada pela UCS (Universidade de Caxias do Sul) em 2005. Arteterapeuta de abordagem Junguiana e Analista Junguiana pelo IJRS (Instituto Junguiano do RS). Possui formação em Tanatologia (Perdas, lutos e separações) pela RNT – Rede Nacional de Tanatologia e Instituto Luspe. Além de ser Especialista em Psicologia Hospitalar pelo Hospital Moinhos de Vento e em Neurociências, Educação e Desenvolvimento Infantil pela PUCRS. Mestranda no Programa de Pós-Graduação em psicologia pela UCS e membro do Núcleo de Famílias do IJRS.





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